Encontrei Jaiminho, um velho amigo da Pituba, no lugar mais moderno da solidão: parado dentro de um carro, cercado de tecnologia e silêncio, esperando o semáforo decidir o destino de todos nós.
Era curioso vê-lo ali. O vidro fechado, o ar-condicionado ligado, o rosto iluminado pela tela do celular. Tinha a expressão típica dos homens contemporâneos: pressa no semblante e cansaço na alma.
Buzinei de leve. Ele me reconheceu com aquele susto alegre de quem reencontra o passado no meio do trânsito. Baixou o vidro só uns quatro dedos, a medida exata da intimidade atual.
– Olá, como vai?
Pergunta antiga, resposta moderna.
— Eu vou indo… e você?
Ninguém mais vai bem. Vai indo. A vida virou gerúndio cansado. Vamos indo para reuniões, exames, filas, remédios e promessas de descanso no próximo feriado.
Disse-lhe que estava tudo bem, embora eu suspeitasse do contrário em mim mesmo. Ele disse o mesmo, com igual convicção duvidosa.
O sinal permanecia vermelho, esse raro milagre urbano que obriga criaturas apressadas a se encarar por alguns segundos.
– Quanto tempo!
Frase inevitável quando já não sabemos nada da vida alheia. Quanto tempo pode significar meses, anos ou uma existência inteira desperdiçada em agendas lotadas.
Quis perguntar pelos filhos, pela esposa, pela mãe dele que fazia bolo de aipim, pelo violão que tocava nas noites de sábado, pelo sonho que tinha de abrir um bar à beira-mar. Mas as palavras, como pedestres mal educados, atravessavam fora da faixa e sumiam.
Ele, por sua vez, parecia querer me contar alguma coisa importante. Talvez uma doença, uma promoção, uma separação, uma saudade. Mas consultou o relógio, depois o celular, depois o retrovisor – três oráculos modernos que jamais respondem ao que importa.
– Precisamos nos ver por aí.
Promessa nacional. Mora no mesmo bairro do “vamos marcar” e faz divisa com o município de “qualquer dia desses”.
– Pra semana – completou.
Pra semana é a terra prometida dos ocupados. Tudo que não cabe hoje é empurrado para lá: dietas, reconciliações, consultas médicas, pedidos de desculpa e visitas aos amigos.
O sinal amareleceu. Sempre achei o amarelo a cor oficial da angústia.
Ele estendeu a mão pela fresta da janela. Apertei seus dedos como quem tenta segurar um tempo que escorre.
– Me liga.
– Ligo sim.
Mentimos com ternura.
Veio o verde. Cada qual arrancou para seu lado, como se o mundo fosse um grande estacionamento de despedidas rápidas.
Fiquei pensando que a vida moderna transformou nossos encontros em cruzamentos e nossas amizades em semáforos: abrem por instantes, fecham depressa, e quando percebemos já estamos longe demais para voltar de ré.
Cheguei em casa decidido a telefonar para ele. Procurei o número antigo. Não existia mais.
Sentei na varanda, ouvindo ao longe o rumor dos carros, e me ocorreu que talvez o maior barulho das cidades não venha dos motores, mas das conversas que nunca terminamos.
(Homenagem a Paulinho da Viola)
Matéria: reprodução da internet / Hoje Bahia.

