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TV NOTÍCIAS 24 HORAS > BRASIL > O que é o laboratório de biossegurança Orion, ‘referência’ que promete elevar soberania científica?
BRASIL

O que é o laboratório de biossegurança Orion, ‘referência’ que promete elevar soberania científica?

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O que é o laboratório de biossegurança Orion, 'referência' que promete elevar soberania científica?
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Sumário
O que significa o nível 4 de biossegurança?Tem acelerador de partículas no Brasil?Onde está sendo construído o laboratório Orion?Qual a importância da segurança no laboratório?O que sabemos sobre o vírus Sabiá?

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil — incluindo da direção do próprio laboratório —, entendem que o Orion permitirá, via pesquisas, antever crises como epidemias ou pandemias, e até mesmo casos de bioterrorismo.

O diretor-geral do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), Antonio José Roque da Silva, destacou à reportagem que o aprendizado com o novo coronavírus mostra a urgência de estruturas de ponta para respostas rápidas. “Ou você tem infraestrutura e capacidade pronta para proteger a sociedade, ou você não tem tempo, porque a pandemia avança muito rápido.”

“Há uma demanda internacional. Pós-pandemia, o mundo inteiro percebeu que precisa estar mais pronto e mais organizado para eventuais novas pandemias — que é um consenso de que ocorrerão novamente. Quando ninguém sabe, mas algo assim vai acontecer”, afirmou.

O que é o laboratório de biossegurança Orion?

Roque da Silva explicou que a criação do laboratório Orion é resultado de iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), articulada ainda durante a pandemia. Segundo ele, o projeto nasceu da percepção de que o país precisava fortalecer infraestruturas de pesquisa de alta segurança biológica.

Ele lembrou que, naquele momento, a pasta direcionou recursos para construir laboratórios de nível de biossegurança 3 (NB3) em várias regiões do país, mas que o próprio ministério entendeu que era preciso integrar futuras instalações de nível de biossegurança 4 (NB4) com o acelerador de partículas Sirius.

Além disso, o avanço do projeto se consolidou com o novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), no atual governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que “trouxe possibilidade de investimentos mais vultosos”, e ganhou também a cooperação do Ministério da Saúde. “É um projeto do governo federal que entendeu a importância de você ter uma infraestrutura desse tipo.”

O biólogo e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) José Luiz Proença Módena, que participou de discussões prévias sobre o laboratório, explica que o Orion será uma unidade que permitirá estudo de vírus que já circulam no Brasil e de potenciais agentes emergentes, além de viabilizar parcerias com a indústria farmacêutica para testes de novos medicamentos.

Segundo ele, será possível estudar HIV, tuberculose, febre aftosa e outros vírus de alto risco humano e veterinário.

Ele também destaca que o laboratório permitirá superar gargalos existentes globalmente. Atualmente, há fila de quase três anos para testes pré-clínicos com primatas não humanos em laboratórios de nível máximo no mundo.

O custo estimado para experimentação em primata em estrutura NB4 é de aproximadamente 25 mil dólares por ano, diz. “Essa estrutura é importante como independência científica, mas também como modelo de negócio para estimular pesquisa aplicada, sem sobrecarregar os cofres públicos.”

O que significa o nível 4 de biossegurança?

O Orion será o primeiro NB4 da América Latina. Tais estruturas são capazes de lidar com os patógenos mais perigosos do mundo, como o vírus Ebola, por exemplo.

Para Roque da Silva, a ausência dessa infraestrutura impede que a região desenvolva métodos próprios de diagnóstico e tratamento para vírus de alta letalidade.

Além do NB4, o Orion também contará com laboratórios de NB3 — categoria à qual pertence o SARS-CoV-2, causador da COVID-19. O grande diferencial, segundo o diretor do CNPEM, será a integração com o acelerador de partículas Sirius, também em Campinas.

A estrutura, segundo o projeto, promete a realização de experimentos com primatas não humanos e produzir dados essenciais para vacinas e terapias. A ideia é que Campinas e o estado paulista se tornem polo internacional de pesquisa em virologia e inovação biomédica.

“É importante entender como o vírus entra na célula, controla a máquina de fabricação de proteínas e causa danos em tecidos. Com o Orion, será possível fazer imagens tridimensionais em nível celular e acompanhar a doença em seres vivos.”

Segundo ele, o projeto executivo levou cerca de dois anos para ser finalizado e já está em fase de seleção das empresas responsáveis pela obra.

Módena explica que os níveis seguem diretrizes internacionais, com particularidades locais.

O nível 1 é destinado a microrganismos não patogênicos, com trabalho feito na bancada e uso básico de equipamentos; o nível 2 envolve patógenos que oferecem risco ao operador ou ao ambiente, exigindo cabines de biossegurança que protegem o trabalhador; no nível 3, há pressões negativas no ambiente, de modo que o ar circula de fora para dentro, evitando contaminação externa.

Por fim, o nível 4 representa o ápice da segurança biológica. Nele, o operador não respira o ar da sala; utiliza-se roupa hermética ligada a uma fonte externa de ar livre de patógenos. Movimentos dentro do laboratório exigem conexão e desconexão controladas da fonte de ar, enquanto todos os resíduos e efluentes passam por tratamento e autoclavagem.

Segundo o diretor do CNPEM, o Orion será essencial para garantir que o país tenha capacidade de responder a emergências sanitárias e tecnológicas sem depender totalmente do exterior, o que está diretamente ligado à soberania científica brasileira.

Para ele, há uma mudança no cenário político e econômico global: “O que antes defendia-se que era um grande coletivo mundial, hoje, cada país agora está percebendo que precisa ter as suas capacidades.”

Por exemplo, durante a pandemia de COVID-19, países sem produção local de insumos tiveram maior vulnerabilidade.

“Esse estímulo do ecossistema científico é central para a soberania e para a garantia de que o país conseguirá dar as respostas necessárias.”

O diretor ressaltou a importância dessa autonomia ao mencionar a recente crise do metanol. “O Brasil não tinha insumos para os antídotos. O Brasil precisa ter capacidade ampla de produção desse tipo de insumo”, exemplificou.

O engenheiro naval e nuclear Leonam dos Santos Guimarães, coordenador do Comitê de Ciência e Tecnologia da AMAZUL e diretor técnico da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN), comparou a importância do Orion com o fortalecimento da infraestrutura no setor nuclear.

Para ele, assim como o domínio do ciclo de combustível nuclear dá autonomia, a operação de laboratórios de biossegurança de nível máximo permite ao Brasil desenvolver pesquisas com patógenos perigosos de forma independente. “Ambos simbolizam a soberania científica e a capacidade de gerar conhecimento crítico sem depender de estruturas externas.”

O engenheiro também apontou que há potencial de integração entre o setor nuclear e pesquisas biomédicas de alta segurança feitas no local. Segundo Guimarães, tecnologias de contenção, monitoramento, descontaminação e rigor regulatório são comuns em ambos os campos. “A infraestrutura e o rigor regulatório do setor nuclear podem servir de referência para laboratórios como o Orion”, opinou.

Módena também destacou a relevância para a soberania científica brasileira, defendendo que a capacidade local de produção é “estratégica”. Além disso, ele ressaltou que a construção cria oportunidades para formação de especialistas e fortalece a integração entre academia, governo e indústria. “São condições essenciais para transformar capacidade científica em poder tecnológico efetivo.”

Contudo, o diretor do CNPEM afirmou também que o Orion não deve ser visto como solução isolada.

“O Orion não é a panaceia do Brasil. Será uma grande infraestrutura única, mas é fundamental que haja apoio à ciência brasileira e aos pesquisadores que serão os usuários do Orion”, defendeu.

Como a fuga de cérebros afeta o Brasil?

O diretor do CNPEM afirmou que a construção do Laboratório Orion também pode contribuir para reduzir a chamada “fuga de cérebros” do Brasil — movimento de pesquisadores que deixam o país em busca de melhores condições para desenvolver suas pesquisas.

Segundo ele, essa relação “faz sentido”, já que oferecer infraestrutura científica de ponta é um dos principais fatores de atração e retenção de talentos.

“O próprio Sirius já tem um pouco esse impacto, no sentido que você provê para aqueles pesquisadores que estão almejando fazer pesquisa de ponta, de fronteira e que precisam de infraestrutura e ambiente adequados. Ter essas estruturas no Brasil, com certeza, permite uma atratividade.”

Módena avalia que o Orion tem potencial para transformar a região em um dos principais pólos mundiais de virologia. Segundo ele, a estrutura “é de ponta, inovadora, que vai permitir estudos de estrutura dessas partículas”. “Vai ser uma porta de trabalho importante para biólogos.”

Tem acelerador de partículas no Brasil?

O laboratório Sirius possui o acelerador de partículas brasileiro, localizado em Campinas, e faz parte do CNPEM, organização social do MCTI. O diretor-geral do Centro afirma que “o Sirius já é uma infraestrutura singular, demonstra a capacidade do Brasil”, por meio de um acelerador de elétrons não para colisões de partículas, como ocorre em grandes laboratórios na Europa, mas “para gerar luz — uma luz com uma faixa ampla, que inclui principalmente o raio X”.

“O raio X do hospital é mais como uma lanterna, feito para iluminar grandes objetos. O do Sirius é mais parecido com uma ponteira laser — bom para iluminar pequenos objetos, mantendo um altíssimo brilho”, disse. Com isso, o equipamento permite “fazer imagens tomográficas de uma célula única individual com resolução que pode permitir eventualmente enxergar vírus dentro da célula”.

O Sirius, um dos poucos aceleradores de quarta geração abertos ao público científico no mundo, é usado por centenas de pesquisadores em áreas que vão de energias renováveis à biomedicina.

Essa infraestrutura será agora conectada diretamente ao Orion, conexão direta considerada inédita em nível mundial. O projeto prevê ligação por meio de três linhas de luz: “Uma para estudar células, uma para estudar tecidos e outra para estudar pequenos animais, todas com o objetivo de fazer tomografia de altíssima resolução, com alta velocidade e outras capacidades que você não consegue fazer num tomógrafo normal.”

“A possibilidade de ter uma linha de luz do laboratório Orion para o NB4 possibilita fazer coisas como estudar estrutura, fazer imagens de alta resolução de organismos infectados”, explicou Módena. Segundo ele, essa característica torna a instalação única no mundo.

Onde está sendo construído o laboratório Orion?

O Laboratório Orion está sendo construído no CNPEM, localizado em Campinas (SP), a aproximadamente 100 quilômetros (Km) da capital paulista.

O Centro está situado na rua Giuseppe Máximo Scolfaro, no Polo II de Alta Tecnologia de Campinas. O centro abriga laboratórios de ponta como o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), o Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), o Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR) e o Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano).

De acordo com o diretor, parte das obras civis já foi iniciada. “A escavação para o subsolo já foi feita, já está pronta, e iniciamos há pouco tempo o estaqueamento, que esperamos concluir até o fim deste ano. A expectativa é começar a construir o prédio para cima no início do ano que vem”, afirmou.

O Orion terá quatro andares, projetados de forma a atender às exigências técnicas de segurança biológica. O piso principal de trabalho, que é o térreo, abrigará o NB4 e a conexão com as linhas de luz. “É obrigatório que haja um subsolo, porque é ali que se faz o descarte e a inativação de insumos biológicos por gravidade, sem bombeamento, o que é proibido nesse tipo de ambiente.”

Os andares superiores abrigarão sistemas de filtragem e controle ambiental para garantir segurança dos profissionais, com roupas “parecidas com as de astronautas”.

O estágio atual inclui a fundação e o estaqueamento de cerca de mil estacas, além da escavação do subsolo já concluída. “Esperamos concluir essa parte civil em 2027. Isso será o prédio, a infraestrutura. Depois teremos que levar os equipamentos, concluir as linhas de luz e preparar o laboratório para operação.”

As três linhas de luz que conectarão o Orion ao acelerador Sirius também começaram a ser construídas. “Elas começam dentro do Sirius, então já podem ir sendo montadas antes da conclusão do prédio do Orion. Até o fim de 2027, devemos ter essas três linhas prontas para instalação.”

Qual a importância da segurança no laboratório?

O professor José Luiz Proença, do Instituto de Biologia da Unicamp, reforçou a importância da capacitação de profissionais para atuar em laboratórios de alto risco biológico, como o Orion.

Segundo ele, “é importantíssimo quando a gente pensa num laboratório desse nível de segurança, você ter um alto grau de capacitação e de formação das pessoas que vão trabalhar lá”.

O treinamento já está em andamento, com turmas de todo o Brasil sendo preparadas para operar em laboratórios de nível 3, e há previsão de programas específicos para o nível 4.

Para garantir a segurança, o Orion contará com um “laboratório fake”, estrutura idêntica ao nível 4, mas sem agentes patogênicos, onde os profissionais podem treinar sem risco. Segundo o pesquisador, a formação é rigorosa e envolve etapas teóricas e práticas.

Nos primeiros meses, os profissionais nunca trabalham sozinhos, sempre acompanhados por um tutor que orienta a manipulação dos microrganismos. “Depois que passa todo esse período de tutoria, você pode trabalhar sem o tutor, mas você nunca trabalha sozinho, você sempre trabalha em dupla, porque se acontecer um acidente, você tem outra pessoa junto para fazer as medidas de segurança.”

O treinamento completo para atuar no nível 4 leva cerca de um ano, tornando-se a primeira experiência desse tipo no Brasil. Módena destacou ainda que a criação do Orion não se limita à resposta a pandemias recentes, como a da COVID-19, mas permite “antever algumas complicações de determinados vírus”, estudando agentes com potencial emergente antes que se tornem uma ameaça.

O que sabemos sobre o vírus Sabiá?

Patógenos emergentes como o vírus Sabiá, considerado de nível máximo de risco, são um dos principais alvos iniciais.

Segundo Módena, “o Brasil é considerado o país mais megadiverso do mundo em termos de vida”, o que inclui mamíferos, aves, insetos e plantas — e, consequentemente, uma grande variedade de microrganismos, muitos ainda desconhecidos e com potencial de infectar humanos.

Entre os agentes de maior risco presentes no país, ele cita o vírus Sabiá, classificado como nível quatro. “O Sabiá é um arenavírus que causa uma doença hemorrágica muito grave. Ele não é do mesmo grupo do Ebola, mas causa uma doença semelhante, com taxa de mortalidade muito alta e sem tratamento”, explicou.

O especialista destaca a incerteza sobre a circulação natural do vírus e alerta para a importância de estruturas que permitam pesquisa prévia e mitigação de riscos, como o caso do Orion.

Além do Sabiá, há outros vírus silvestres, como o Oropouche, que circula principalmente na Amazônia entre bichos-preguiça, primatas e roedores, transmitido por mosquitos conhecidos como maruins. “Ele circula de maneira silenciosa na floresta, mas devido à ocupação humana e à mudança na dinâmica dos vetores, houve surtos recentes em áreas urbanas do Amazonas e até em outros estados, como Espírito Santo e São Paulo”, relatou.


Matéria: reprodução da internet / Hoje Bahia.

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