Segunda de manhã resolvi fazer um pequeno experimento filosófico, sem que ninguém percebesse. Sentei-me num banco da Praça Municipal, na frente do Elevador Lacerda que liga a Cidade Alta à Cidade Baixa, como se tentasse convencer o céu e o mar a dialogarem sobre a Baía de Todos-os-Santos.
Kant certamente aprovaria o cenário. Afinal, escreveu que todo ser racional deseja necessariamente ser feliz. Se estivesse em Salvador, talvez não dissesse isso em alemão. Bastaria sentar-se ali por uma hora.
O primeiro a passar foi um ambulante empurrando um carrinho de água de coco. Caminhava apressado. A felicidade dele talvez tivesse o formato de vender tudo antes do sol do meio-dia.
Logo depois veio um executivo, gravata desalinhada e celular colado ao ouvido. Parecia perseguir a felicidade como quem corre atrás de um ônibus que já dobrou a esquina da Ladeira da Praça.
Uma turista fotografava tudo: os casarões, as baianas de acarajé, os pombos, o azul exagerado da Baía de Todos-os-Santos. Para ela, a felicidade cabia numa boa lembrança. Talvez numa fotografia capaz de sobreviver ao tempo.
Um pescador, voltando da pescaria, sorria sozinho. Carregava poucos peixes. Pensei que sorria porque vendera bem. Quando passou perto, ouvi-o dizer ao amigo:
– Hoje o mar deixou eu trabalhar.
Percebi que, para alguns, a felicidade não é conquista. É permissão.
Enquanto isso, um menino corria atrás de uma bola imaginária. Não havia bola alguma. Bastava a imaginação. Sorriu com todos os dentes, tropeçou, levantou-se e continuou correndo. Há uma idade em que a felicidade dispensa explicações.
Foi então que me dei conta de uma travessura da vida.
Todos ali desejavam a mesma coisa. Ninguém desejava a tristeza, o fracasso ou a solidão. Nesse ponto, Kant tinha razão: somos todos moradores da mesma esperança.
Mas havia uma diferença que o filósofo também conhecia. Cada um desenhava a felicidade com lápis de cor diferente.
Uns a procuravam no dinheiro. Outros no amor. Alguns na saúde. Outros ainda numa pescaria generosa, num abraço demorado, numa rede armada à sombra de um coqueiro ou simplesmente na brisa que sobe da Baía e refresca o rosto de quem já estava desistindo, de tanto calor.
Talvez o erro não esteja em desejar a felicidade, porque isso é da nossa natureza. O erro é acreditar que ela mora sempre na próxima esquina, na próxima promoção, no próximo cargo, na próxima sexta-feira.
Às vezes ela já passou por nós, vestida de simplicidade, e nem demos bom-dia.
Levantei-me do banco quando os sinos da Conceição da Praia começaram a conversar com o vento. O Elevador Lacerda continuava levando gente para cima e para baixo, indiferente às nossas filosofias.
Sorri.
Naquele instante compreendi que Salvador ensina uma lição que nem sempre cabe nos tratados de filosofia: a felicidade não costuma fazer alarde. Ela chega como a maré na Ribeira, silenciosa, molhando primeiro os pés de quem teve a delicadeza de parar por um instante e olhar a Baía de Todos-os-Santos com o coração desocupado.
Matéria: reprodução da internet / Hoje Bahia.

