
O outono chega com um suspiro frio e uma paleta de cores que vão do ferrugem ao ouro velho. As folhas, em seu último bailado, espalham-se pelos jardins como lembretes da fugacidade das coisas. E no crepúsculo do último dia de outubro, algo no ar muda. Não é só o frio que se insinua; é uma memória ancestral, um eco de milênios que sussurra: o véu está fino.
Esta noite, a que chamamos de Halloween, carrega nos ombros o peso antigo do Samhain. Os celtas, com os pés fincados na terra úmida e os olhos voltados para as fogueiras que desafiavam a escuridão, entendiam o que nós, na pressa das cidades, esquecemos: que há um ritmo no universo, um tempo para a vida e um para o repouso. E nesta fronteira entre um e outro, coisas podem passar.
Eles viam a morte não como um fim absoluto, mas como um vizinho silencioso, cuja presença se tornava mais tangível nesta noite específica. As almas dos ancestrais podiam vagar, e com elas, sombras menos amistosas. Daí os disfarces, as máscaras grotescas. Não era uma festa de horror, era um estratagema de sobrevivência. “Não me vejam”, diziam os rostos ocultos. “Sou um dos vossos, um fantasma entre fantasmas.”
A Igreja, sagaz, tentou costurar um novo significado sobre o pano pagão. Batizou a data, trouxe os santos para a linha de frente. Mas o substrato permaneceu, teimoso. O povo manteve os ritos, ainda que esvaziados de sua crença original. A abóbora, a famosa jack-o’-lantern, é um símbolo perfeito dessa transmigração. A lenda irlandesa do avarento Jack, condenado a vagar pela Terra com seu nabo oco iluminado por uma brasa, encontrou na abóbora americana (mais farta e fácil de esculpir) um novo corpo. A lanterna já não afasta apenas um espírito específico; ela ilumina o caminho das crianças em sua peregrinação moderna.
E eis a transformação mais profunda: o “gostosuras ou travessuras”. O que era um ritual de oferenda para aplacar espíritos hostis transformou-se no doce cerimonial das crianças fantasiadas. Elas, em sua inocência, tal sejam os próprios espíritos que os antigos temiam: pequenos duendes, bruxas e zumbis que batem às nossas portas exigindo tributo. Nós, ao lhes dar doces, repetimos o gesto ancestral de apaziguar o desconhecido, de garantir que a noite passe em paz, sem que nossa casa seja alvo de uma “travessura”.
Então, quando você vir uma sombra mais longa do que deveria, ou ouvir um riso ao longe que não é de criança, pare e respire o ar deste crepúspulo. Lembre-se dos celtas em seus campos, das fogueiras que iluminavam o medo e a esperança. O Halloween não é sobre monstros inventados; é sobre a nossa relação com o grande mistério, com a memória dos que se foram e com o ciclo eterno da vida e da morte.
É a noite em que, por uma brecha no tempo, podemos sussurrar com o passado e, ao mesmo tempo, rir do futuro, com um punhado de doces na mão e o coração um pouco mais leve, porque, por uma noite, aceitamos que o véu pode ser fino, e tudo bem.
Matéria: reprodução da internet / Hoje Bahia.

